24/04/07

Foto: desconhecido

METADE

"...E que a força do medo, não me impeça de ver o que anseio.
Que a morte de tudo em que acredito não me tape os ouvidos e a boca.

Porque metade de mim é o que grito, mas a outra metade é silêncio.

Que a música que eu ouço ao longe, seja linda, ainda que triste.
Que o homem que amo seja para sempre amado mesmo que distante.

Porque metade de mim é partida e a outra metade é saudade.

Que as palavras que eu falo não sejam ouvidas como prece, nem repetidas com fervor, apenas respeitadas, como a única coisa que resta a uma mulher munida de sentimentos.

Porque metade de mim é o que ouço, mas a outra metade é o que calo.

Que essa minha vontade de ir embora se transforme na calma e na paz que eu mereço.
E que essa tensão que me corrói por dentro seja um dia recompensada.

Porque metade de mim é o que penso e a outra metade é um vulcão.

Que o medo da solidão se afaste, e que o convívio comigo mesma, se torne ao menos suportável.
Que o espelho reflicta em meu rosto, um doce sorriso, que me lembro ter dado na infância.

Porque metade de mim é a lembrança do que fui, a outra metade eu não sei.

Que não seja preciso mais que uma simples alegria para me fazer aquietar o espírito.
E que o teu silêncio me fale cada vez mais.

Porque metade de mim é abrigo, mas a outra metade é cansaço.

Que a vida nos aponte uma resposta, mesmo que ela não saiba.
E que ninguém a tente complicar porque é preciso simplicidade para fazê-la florescer.

Porque metade de mim é plateia, e a outra metade canção.

E que a minha loucura seja perdoada...
Porque metade de mim é amor. E a outra metade... também!"

- Oswaldo Montenegro -
Foto: Rui Alves

... Não é fácil, eu sei. Hás-de ter sentido a falta de qualquer coisa, da humanidade de um som que te fizesse descer à terra, do calor que a minha voz não tinha. Eu sei. Ninguém vive só de amor e muito menos de um amor quase ausente.
Eu sei, eu sei que é estranho este meu modo de ser e de te dizer - em silêncio - que te amo.
- Manuel Jorge Marmelo -
A vida nem sempre é como desejamos. Normalmente não é como desejamos. Talvez porque queremos sempre mais. O ser humano é mesmo assim. Por um lado é óptimo, querermos evoluir, e ambicionar - com peso e medida - ter melhor na nossa vida.
Não sou muito exigente, nem ambiciono impossíveis. Até porque em tempos tive bastante, e hoje o que tenho dá para viver, embora com alguns sacrifícios e a fazer muitas contas à vida, como a maior parte das pessoas, tenho a certeza. Passei pela experiência de ter muito e não ter nada! E acreditem que é uma grande lição de vida, termos a certeza de que nada é certo e eterno na nossa vida.
Há algum tempo tive conhecimento de que uma moça de apenas vinte e seis anos, se atirou da Ponte Vasco da Gama. Tentou suicidar-se, mas foi salva por um pescador que, por acaso, andava ali perto. Lembro de ter pensado que nada na vida merece que se dê um passo daqueles. Morrer porquê? Para essas pessoas, a morte não é a pior das coisas, é a última! Dei comigo a pensar que de alguma forma é uma cobardia procurarmos resolver os problemas dessa forma, que não tem retorno.
Mas quem sou eu para avaliar uma atitude dessas?
Ontem, no regresso a casa, e porque ultimamente na minha vida tudo parece dar errado, é uma luta constante sem folgas para respirar fundo, os acontecimentos menos bons sucedem-se uns atrás dos outros, nada dá certo ou como imaginava que seria, e há dias de um cansaço e um desanimo sem limites. De querer desistir de tudo! Dei comigo a lembrar aquele episódio, enquanto ia na dita ponte.
E por breves instantes, eu compreendi aquela jovem, e senti que na verdade por vezes há momentos na vida que nos podem levar a desistir e a fazer o que todos chamamos de "uma loucura"!!!
E não será egoismo da nossa parte, não pensar que, afinal há quem tenha problemas bem mais graves do que os nossos?
Bom feriado!
Durante dois dias, retirei o acesso a este meu cantinho.
Por motivos de que não vou falar aqui, nem agora.
Mas resolvi voltar, porque sim, porque o que aqui escrevo é sincero, verdadeiro e muito grande. Para mim é! Há já alguns anos que aqui falo de sentimentos. Dos meus! E porque não tenho vergonha deles, vou continuar.
Só enquanto eles existirem!
Se por acaso as palavras que escrevo incomodarem alguém, só tem que deixar de passar por aqui e de as ler.
Já aqui disse que, se há um sentimento que prezo muito é a amizade. Penso que, na verdade, é o sentimento mais verdadeiro e duradouro que existe.
Tenho amigos há mais de trinta anos. Amigos que, todas ou quase todas as semanas me ligam ou para quem eu ligo, nem que seja para meia dúzia de palavras rápidas. Por vezes, só mesmo um "olá, está tudo bem contigo? Depois falamos, agora estou com pressa!". Tenho um amigo que, uma vez por outra, vem do Porto a Lisboa para jantar comigo, para passarmos algumas poucas horas de conversa e "matar" as saudades. Sei o que é amizade, e qual o seu valor.
E ontem, dou comigo a pensar, como ainda - a esta altura - há algumas atitudes, ou alguns gestos, que muito significam para mim e me fazem bem.
Também é verdade que tenho - com todas as minhas forças - feito os possíveis e impossíveis para deixar de dar tanta importância a isso.
Ainda não sou indiferente a esses pequenos gestos, que me enchem a alma, e me fazem sentir - ainda - um pouco importante para algumas pessoas.
Ainda não sou indiferente a grandes ausências, a longos silêncios, a algum esquecimento.
Mas vou conseguir! Tenho que conseguir.
A semana de George Clooney

23/04/07

Sonhar é o melhor de tudo
e muito melhor do que nada...!!!

- Luís Fernando Veríssimo -
O Som do Silêncio

É o som da distância. O som que se ouve no cimo de uma montanha, o som dos quilómetros entre dois cumes num dia limpo e calmo.
É o som que cheira a terra. O som que se ouve nos dias cinzentos depois de passada a chuva, quando os cães ainda estão molhados demais para ladrar.
É o som da sesta. É o som que se ouve às quatro da tarde alentejanas quando as paredes grossas isolam do mundo as crianças que dormindo mantêm uma silenciosa e abençoada mudez.
É o som do preto. O som que se ouve no mar alto quando a água é azeite e a ausência da lua torna indistinguível o preto do mar do preto do céu.
É o som da solidão. O som que se ouve enquanto pensamos nas imagens de todas as vidas de todas as pessoas de que não fazemos parte.
É o som da pausa. Da pausa de semi-breve, da suspensão no meio do fraseado de uma sonata, do tempo entre dois andamentos de um concerto quando, desconfortáveis na poltrona, não nos mexemos para não quebrarmos a magia.
É o som do branco. O som que se ouve dentro do nevoeiro que cobre uma montanha de neve, onde o branco a toda a volta nos apaga todas as referências, coisa de manicómio e de malucos incapazes de distinguir o cima do baixo, a direita da esquerda.
É o som da exiguidade. O som do armário escuro onde escondidas as crianças brincam às mesmas.
É o som do embaraço. O som que se ouve num elevador de um prédio de escritórios subindo cheio, e de estranhos, às nove da manhã.
É o som do suspense. O som que antecede a facada, o trabalhar da motosserra, o grito ao dobrar da esquina, o piano a despedaçar-se no passeio, o erguer do zombie. O som entre o engatilhar da arma encostada à cabeça e o PUM.
É o som da culpa. O som que se ouve quando não há volta a dar nem desculpa a pedir, é o som que acompanha o cair das orelhas e o rabo entre as pernas.
O único silêncio que conheço é o que se ouve. É o som que se ouve entre um som e outro.

- Pedro Bidarra in "Um Minuto de Silêncio" -
















Indigo Bay Island Resort
Ilha de Bazaruto / Moçambique
Uma semana com George Clooney

20/04/07

Foto: Objectos
Vou então encerrar a semana de Reynaldo Gianecchini.....
.....em beleza! Alguma dúvida???
Foto: Dominique Lefort

Um dos Capítulos

Ainda te falta dizer isto:
que nem tudo o que veio chegou por acaso.
Que há flores que de ti dependem,
que foste tu que deixaste algumas lâmpadas acesas.
Que há na brancura do papel
alguns sinais de tinta indecifráveis.
E que esse é apenas
um dos capítulos do livro
em que tudo se lê
e nada está escrito.

- Albano Martins in "Escrito a Vermelho" -
Foto: 1000 imagens

A isto é o que se pode chamar de uma soneca abençoada...!
Foto: Amanda Com.
Há palavras como tecido, incapaz de conter a explosão da pele...

- aqui não há poeta -
A semana de Reynaldo Gianecchini

19/04/07

Foto: João Cravo

Consegues imaginar o céu sem o azul? É assim que me faltas...

- Luís Ene -
Para descontrair....

Um professor de matemática quis pregar uma partida aos alunos e disse-lhes:
- Meninos aqui vai um problema para resolverem:
Um avião saiu de Amsterdão a uma velocidade de 800 km/h, à pressão de 1.004,5 milibares; a humidade relativa era de 66% e a temperatura 20,4 graus C. A tripulação era composta por 5 pessoas, a capacidade era de 45 assentos para passageiros, o wc estava ocupado e havia 5 hospedeiras a bordo (mas uma estava de folga).
A pergunta é.... Quantos anos tenho eu?
Os alunos ficaram assombrados. O silêncio é total!
Então, o Joãozinho, lá no fundo da sala e sem levantar a mão diz de pronto:
- 44 anos, professor!
- Caramba, tá certo. Eu tenho 44 anos. Mas como é que tu adivinhaste?
E o Joãozinho:
- Bem, eu deduzi porque tenho um primo que é meio parvo, e ele tem 22 anos...
Os meus recortes

O que custa é ser feliz....

A vida exige diariamente de todo nós uma série de adaptações. Por vezes, poderíamos até dizer que mais se trata de violentações, tal a intensidade de que algumas delas se revestem.
O mundo parece, contudo, dividido entre duas espécies de pessoas - as que têm de se adaptar e as que impõem adaptações. Por circunstâncias históricas, a maioria das mulheres coloca-se, ou é colocada, na primeira daquelas categorias.
Não me tenho por particularmente feminista, mas, para ficar a meio caminho entre aquelas duas ordens escatológicas, tive de, ao longo da minha existência, travar muitas lutas. Terá sido a circunstância de ter perdido algumas batalhas que, aliada ao facto de ser mulher, me não terá permitido ganhar todas as guerras!
Eis-me, assim, colocada numa posição intermédia, mercê de muito esforço e de alguma incompreensão. E dirão alguns que mesmo assim tenho muita sorte...
Com efeito, grande número de mulheres não terão conseguido, ao longo do seu percurso, o meu «poder negocial», uma vez que não tendo tido, como eu, acesso a um curso superior, e ao exercício de uma profissão razoavelmente remunerada, se viram obrigadas às adaptações que toda a dependência económica acaba por impor.
Mas algumas haverá, também, que tendo podido fazê-lo preferiram a dependência admitindo que, com o correr dos tempos, seriam elas as menos afectadas.
Outras ainda, não tendo conseguido suportar as condicionantes da dependência, decidiram, a meio caminho, mudar de rumo e ser independentes.
Finalmente, um escasso número de mulheres obtiveram ou herdaram situações que as colocaram numa esfera em que as normas de conduta são as que elas próprias se encarregam de ditar.
Dir-se-à que o que acabo de descrever não é, apenas, apanágio das mulheres. A isto poderá responder-se que quando tais situações se verificam entre homens derivam mais das hierarquias que entre eles se estabelecem, ou das origens sociais a que pertencem, do que à circunstância de serem homens. Não é, infelizmente, o nosso caso. Que às mesmas situações teremos de juntar o pertencer ao sexo feminino.
Assim, conviria estarmos atentas às adaptações que teremos de ir fazendo, porque algumas delas se me afiguram absolutamente dispensáveis. O que permitirá, nas outras, que nos adaptemos o melhor possível.
De facto, o que importa é definir que tipo de adaptações estamos dispostas a fazer. Se elas nos ajudam a ser mais felizes, então, adaptemo-nos. Se, pelo contrário, elas nos tornam infelizes, sejamos cautelosas.
É sobre estas últimas que gostaria de dizer alguma coisa mais.
Ninguém consegue, a menos que seja santo, e esse não é o caso vulgar, levar uma vida inteira a fazer concessões que causem infelicidade. Por mais «amorosamente» que elas se processem...
Sejamos, então, capazes de um exercício contabilístico a nível psicológico, de modo a escolher, dentre as adaptações difíceis, apenas as inevitáveis. Isto pressupõe, é claro, que cada uma de nós se não sinta, pelo facto de ser mulher, especialmente vocacionada para o sacrifício, ou para o sofrimento. Na verdade, nada nela a destina, em especial, para tais situações. Será um mito com muitos defensores, mas que urge, à luz da nossa realidade.
Direi, assim, que devemos limitar as adaptações difíceis apenas às que consideramos inevitáveis, e dentro destas cingirmo-nos às que tenham algumas utilidade.
E depois, empreguemos as energias que nos restam a tentar fazer as adaptações que nos tornem mais autênticas, que satisfaçam melhor as nossas próprias necessidades, que, enfim, nos dêem maior felicidade.
Em breves palavras, saibamos, também, ser um pouco egoístas, não esquecendo que ser infeliz custa pouco, porque, mais ou menos, todos somos. O que custa, verdadeiramente, é ser feliz...

- Helena Sacadura Cabral in "Bocados de Nós" -
E a seguir ao almoço......




Sem comentários.......
Uma semana com Reynaldo Gianecchini

18/04/07

Foto: Emmanuel S.Pollux

Por vezes, apesar das várias escolhas, optamos por ser solitários. Porque sim!
Talvez pela opção que fiz, há dias em que me sinto frágil, exposta, mesmo quando trago vestido aquele que julgo ser o meu mais belo sorriso, que quero todos percebam.
E há momentos de muita coragem, em que me sinto capaz de dizer tudo o que sempre guardei só para mim.
Foram tantas as vezes em que me vim embora carregada de dúvidas, e coberta de tantas outras certezas. As dúvidas diziam respeito a tudo o que ficava para trás, fora do meu alcance. Sempre tive tendência de guardar para mim as dúvidas e qualquer coisa indefinida que existisse cá dentro.
As certezas que trazia comigo - que sempre foram - eram tudo o que deseja não ter.
Tudo o que sempre foi importante para mim, nunca deixou marcas - boas ou más - do outro lado! Não só os momentos físicos, de corpos apertados um no outro, mas sim qualquer outra coisa, um instante apenas, um olhar que tenhamos cruzado, um abraço que tenha sido diferente de todos os outros, um sorriso que até veio no momento certo, um beijo mais apetecido que qualquer outro, ou um segundo que tenha sido transcendente, uma essência que fique no meio entre o meu amor e o outro nada.... sei lá, qualquer coisa do tanto que era importante para mim!! Não ficaram marcas.
Apenas restam os meus inabaláveis afectos...
Um brinde a todos esses afectos!
Por existirem! Por serem verdadeiros! Por resistirem ao nada!
Porque são meus...
Boa noite.
Foto: Sandra Brito

Aceitei que irrompesse pela minha vida,
quando sempre jurei que não deixaria nunca
que nenhum homem irrompesse pela minha vida...

Deixei que acontecesse, farta de saber
o que estava a acontecer...
Fica obviamente ridículo , dito assim,
mas as palavras serão sempre de menos...

Ia quase dizer que lhe dei o meu corpo,
a minha cama, a minha ternura, a minha vontade,
ia dizer isto assim
mas chego sempre à conclusão
que não lhe dei nada,
que nos demos, que nos entregámos num momento
e o que se passa é que se calhar
esse momento, esse pequeno momento,
era de facto verdadeiro enquanto vivia.

Rodrigo Guedes de Carvalho
in "Os pés no arame"
A seguir ao almoço.....
O silêncio no mar, na neve, nas noites com muitas estrelas, quando se consegue estar só e pensar e sentir o Universo, e perder a noção do tempo, do espaço e da individualidade.

O silêncio na Gulbenkian, na semana passada.
Mesmo antes de o maestro ordenar à orquestra o arranque do primeiro andamento da Nona Sinfonia.

O silêncio na parte final de uma negociação, quando se jogou a última cartada e se espera pela resposta da outra parte.

O silêncio nos casinos, pontuado pelo saltitar da bola na roleta, as caras, as mãos, a ansiedade dos jogadores.

O silêncio depois do amor, quando a respiração e a transpiração se acalmam e não é preciso nem possível dizer nem fazer mais nada, porque se quer prolongar o prazer e eternizar o presente.

O silêncio, há dias, em casa do André Gonçalves Pereira, quando os guitarristas pararam, a noite também e a Kátia Guerreiro atacou a parte final do seu fado.

O silêncio duro e impuro, quando as convenções, as inibições, os temores reverenciais e outras desgraças nos cortam a espontaneidade e nos obrigam a engolir a amargura.
O silêncio da saudade, das ausências irreparáveis, do passado que não voltará.

O silêncio da cumplicidade, quando, de um lado para o outro da sala povoada de pessoas sem cara, um olhar, um gesto, um sorriso dizem tudo.

O silêncio, no meu terraço da Marinha, quando escrevo noite fora, rompido, marcado, violado pelo canto inesperado de uma ave nocturna, aqui, numa árvore, mesmo ao pé de mim.

- Francisco Pinto Balsemão in "Um Minuto de Silêncio" -
A semana de Reynaldo Gianecchini

17/04/07

Foto: desconhecido

Uma despedida é sempre algo muito dorido, muito angustiante.
Quando se trata de alguém que nos é particularmente "especial", torna-se mesmo algo que não conseguimos exprimir por palavras. A dor da ausência que já se adivinha, parece nos vai sufocar!
E tentamos ser "fortes", mais do que aquela dor sem limites, escondemos as lágrimas atrás do nosso mais belo sorriso. Tentamos sufocar aquele misto de dor e medo, porque a certeza de não sabemos quando vai - ou até se vai - terminar aquela ausência, causa também medo, porque não dizê-lo?
Tentamos ao limite amordaçar o medo, o nó na garganta, quando aquela porta se fecha entre nós.
Amordaçamos, estrangulamos aquele medo, ou é ele que nos amordaça a nós?
É como se, aos poucos, nos fosse roubando o ar de que precisamos para viver, como se todo aquele ar tivesse ficado do lado de lá da porta que acabou de se fechar.
Quase inconscientemente, lá continuamos o caminho!
Acompanhada pelo medo que me amordaça, e se junta à longa ausência adivinhada e confirmada, que aos poucos me vai também estrangulando a vontade em acreditar que a amizade afinal sobreviveu à tal porta, que um dia se fechou em silêncio....
Foi há quanto tempo??
Eu, já não sei....
Boa noite.
E porque isto não está nada fácil, aqui vai para descontrair...

O Joãozinho chega à escola e diz à professora:
- A minha gatinha teve 4 gatinhos e são todos do Sporting.
A professora fica muito espantada com a saída da criança, mas nada diz.
Passados uns dias o Director vai visitar a escola e a professora como achou muita piada ao miúdo, diz: Joãozinho, diga lá ao Sr. Director o que aconteceu à sua gatinha?
Diz o Joãozinho: - A minha gatinha teve 4 gatinhos, 2 são do Sporting e 2 são do Benfica.
A professora fica intrigada e diz-lhe: - Então não eram todos do Sporting?
Resposta do Joãozinho: - É que dois já abriram os olhos....
Há já algum tempo que o procurava. Mas entretanto, entre o encontrar e não encontrar, iam surgindo outros com que acabava por ficar. Mas hoje, finalmente, veio parar-me às mãos. Até deixei escapar um alegre "Uau!".
E até abdiquei da minha hora de almoço - ok, tenho que admitir que também estava sem apetite - pela sua companhia. E não me arrependo da opção que fiz, em absoluto! Só mesmo ele hoje arrancava de mim, as boas gargalhadas que já dei à sua custa...
Estou a falar do livro "A Minha Andorinha" de Miguel Esteves Cardoso! Trata-se de um livro de crónicas, onde está bem latente o que todos conhecemos e ao que nos habituou o jornalista. Toda a sua ironia, sentido critico e de oportunidade e toda a sua mordacidade.
E acreditem que vale a pena lê-lo.
Foi-me emprestado, mas assim que possível vou mesmo comprá-lo.
Sempre gostei de ler e ouvir falar Miguel Esteves Cardoso, como devem calcular, agora estou deliciada a lê-lo!!!
A seguir ao almoço....
Mas será um convite para uma boa soneca, ou será um abraço?
E tanto que apetece por vezes um abraço...!!
Ontem deixei aqui um post onde falava das dificuldades da vida. Todos as temos, ou quase todos!
Embora eu seja uma pessoa que encara a vida sempre com um sorriso, tenho tido alguns momentos ultimamente de desalento completo.
De há uns tempos - talvez demasiado - a esta parte, a vida não me dá uma folga. Quando acabei de ultrapassar um barreira, surge outra pior. Tudo é conseguido com muito esforço, muito sofrido, muito sacrifício, muito magoado. E, se por acaso, consigo alcançar o pretendido, já nem sinto prazer no que alcancei de tão difícil foi aquela vitória.
E quando não se tem com quem partilhar todas essas dificuldades, ao final de um dia de trabalho, parece que tudo se torna ainda mais "escuro". Porque há momentos que não se podem partilhar com os filhos.
Depois de uma noite sem dormir, passada a pensar em tanta coisa que me tem acontecido, na companhia dos cigarros, pela primeira vez na minha vida, senti vontade de desistir.
Desistir mesmo!!!
A semana de Reynaldo Gianecchini

16/04/07

Ontem a SIC transmitiu o documentário de James Cameron, "O Túmulo Perdido".
Trata-se da possível descoberta em 1980 do túmulo de Jesus e sua família.
Bem, estive "pregada" em frente à televisão enquanto decorreu o documentário e tenho que admitir que mexeu comigo. É uma questão um tanto delicada e levanta alguma polémica no que diz respeito à ressurreição, e contraria tudo o que nós cristãos aprendemos e nos transmitiram até hoje.
A história dos evangelhos diz que ao terceiro dia após a sua morte, Jesus subiu aos céus, não só o espírito mas o corpo, pelo facto de a sua sepultura ter sido encontrada vazia, descoberta feita por Maria Madalena. Não me chocou tudo o que foi referido - verdade ou não - no documentário. Que Jesus tinha mais irmãos, que foi casado com Maria Madalena, que tiveram um filho. De tudo isto já se fala há muito tempo e acho absolutamente normal, porque afinal Jesus enquanto andou na terra era um homem normal, de carne e osso, e nós fomos feitos à sua imagem.
Que ele subiu aos céus, sim acredito, mas em espírito. O que mexeu comigo, foi a descoberta, a possibilidade de ser seu aquele túmulo e da sua família. E apeteceu-me estar ali, ir lá ver, fazer parte daquele momento. Sempre me fascinou a cidade de Jerusalém, pela sua história. Era a cidade que eu gostaria de conhecer, mais do que qualquer outra.
Sou católica - não praticante - mas crente. Frequentei um colégio de freiras dos cinco aos catorze anos, o colégio "Sagrado Coração de Maria" em Moçambique. Fui baptizada, andei na catequese vários anos, fiz a primeira comunhão e o crisma. Tenho a minha fé, mas não acredito em tudo quanto me foi dito em criança.
A minha curiosidade ficou ao rubro e a minha vontade de ir conhecer ainda é maior.
O que fica do programa é a ciência em potencial confronto com a fé.
A minha fé não ficou minimamente afectada.
E a seguir ao almoço.....
Foto: J. Pedro Martins

Por vezes, a vida é-nos apresentada como uma onda gigante que temos que cavalgar.
Há alturas em que achamos que não vamos resistir a tão grande desafio. À sua força. O que sentimos, o que desejamos alcançar! Tudo é tão difícil, tão sofrido, tão batalhado...
É então, que aprendemos a viver com essas dificuldades, a não reprimir tudo o que sentimos!
E acreditamos que, um dia, tudo será diferente!

"Nada jamais continua.
Tudo vai recomeçar..."

- Mário Quintana -
Os meus recortes...

OS HOMENS DESEJAM AS MULHERES QUE NÃO EXISTEM.
Está na moda - muitas mulheres ficam em acrobáticas posições ginecológicas para rapar os pêlos pubianos nos salões de beleza. Ficam penduradas em paus-de-arara e, depois, saem felizes com apenas um canteirinho de cabelos, como um jardinzinho estreito, a vereda indicativa de um desejo inofensivo e não mais as agressivas florestas que podem nos assustar. Parecem uns bigodinhos verticais que (oh, céus!...) me fazem pensar em... Hitler.
Silicone, pêlos dourados, bumbuns malhados, tudo para agradar aos consumidores do mercado sexual. Olho as revistas povoadas de mulheres lindas... e sinto uma leve depressão, sinto-me mais só, diante de tanta oferta impossível. Vejo que no Brasil o feminismo se vulgarizou numa liberdade de "objectos", produziu mulheres livres como coisas, livres como produtos perfeitos para o prazer. A concorrência é grande para um mercado com poucos consumidores, pois há muito mais mulheres que homens na praça. Talvez este artigo seja moralista, talvez as uvas da inveja estejam verdes, mas eu olho as revistas de mulheres nuas e só vejo paisagens; não vejo pessoas com defeitos, medos. Só vejo meninas oferecendo a doçura total, todas competindo no mercado, em contorções eróticas desesperadas porque não têm mais o que mostrar. Nunca as mulheres foram tão nuas no Brasil; já expuseram o corpo todo, mucosas, vagina, etc.
O que falta? Órgãos internos? Que querem essas mulheres? Querem acabar com os nossos lares? Querem nos humilhar com a sua beleza inconquistável? Muitas têm boquinhas tímidas, algumas sugerem um susto de virgens, outras fazem cara de zangadas, ferozes gatas, mas todas nos olham dentro dos olhos como se dissessem: "Venham... eu estou sempre pronta, sempre alegre, sempre excitada, eu independo de carícias, de romance!..."
Sugerem uma mistura de menina com vampira, de doçura com loucura e todas ostentam uma falsa tesão devoradora. Elas querem dinheiro, claro, marido, lugar social, respeito, mas posam como imaginam que os homens as querem.
Ostentam um desejo que não têm e posam como se fossem apenas corpos sem vida interior, de modo a não incomodar com chateações os homens que as consomem.
A pessoa delas não tem mais um corpo; o corpo é que tem uma pessoa, frágil, ténue, morando dentro dele.
Mas, que nos prometem essas mulheres virtuais? Um orgasmo infinito? Elas figuram ser odaliscas de um paraíso de mercado, último andar de uma torre que os homens atingiriam depois dos seus Ferraris, seus Armanis, ouros e sucesso; elas são o coroamento de um narcisismo yuppie, são as 11 mil virgens de um paraíso para executivos. E o problema continua: como abordar mulheres que parecem paisagens?
Outro dia vi a modelo Daniela Cicarelli na TV. Vocês já viram essa moça? É a coisa mais linda do mundo, tem uma esfuziante simpatia, risonha, democrática, perfeita, a imensa boca rósea, os "olhos de esmeralda nadando em leite" (quem escreveu isto?), cabelos de ouro seco, seios bíblicos, como uma imensa flor de prazeres. Olho-a de minha solidão e me pergunto: "Onde está a Daniela no meio desses tesouros perfeitos? Onde está ela?" Ela deve ficar perplexa diante da própria beleza, aprisionada em seu destino de sedutora, talvez até com um vago ciúme de seu próprio corpo. Daniela é tão linda que tenho vontade de dizer: "Seja feia...".
Queremos percorrer as mulheres virtuais, visitá-las, mas, como conversar com elas? Com quem? Onde estão elas? Tanta oferta sexual me angustia, me dá a certeza de que o nosso sexo é programado por outros, por indústrias masturbatórias, nos provocando desejo para me vender satisfação. É pela dificuldade de realizar esse sonho masculino que essas moças existem, realmente. Elas existem, para além do limbo gráfico das revistas. O contacto com elas revela meninas inseguras, ou doces, espertas ou bobas mas, se elas pudessem expressar os seus desejos, não estariam nas revistas sexy, pois não há mercado para mulheres amando maridos, cozinhando felizes, aspirando por namoros ternos. Nas revistas, são tão perfeitas que parecem dispensar parceiros, estão tão nuas que parecem namoradas de si mesmas.
Mas, na verdade, elas querem amar e ser amadas, embora tenham de ralas nos hárens virtuais inventados por machos. Elas têm de fingir que não são reais, pois ninguém que ser real hoje em dia.
Infelizmente, é impossível tê-las, porque, na tecnologia das gostosura, elas se artificializam cada vez mais, como carros de luxo se aperfeiçoando a cada ano. A cada mutação erótica, elas ficam mais inatingíveis no mundo real. Por isso, com a crise económica, o grande sucesso são as meninas belas e saradas, enchendo os sites eróticos da internet ou nas saunas relax for men, essa réplica moderna dos haréns árabes. Essas lindas mulheres são pagas para não existir, pagas para serem um sonho impalpável, pagas para serem uma ilusão. Vi um anúncio de boneca insuflável que sintetiza o desejo impossível do homem de mercado: ter mulheres que não existam... Essa é a utopia masculina: satisfação plena sem sofrimento ou realidade.
A democracia de massas, mesclada ao subdesenvolvimento cultural, parece "libertar" as mulheres. Ilusão à toa. A "libertação da mulher" numa sociedade ignorante como a nossa deu nisso: super objectos que se pensam livres, mas aprisionadas numa exterioridade corporal que apenas esconde pobres meninas famintas de amor e dinheiro. A liberdade de mercado produziu um estranho e falso "mercado da liberdade". É isso aí. E ao fechar este texto, assalta-me a dúvida: estou sendo hipócrita e com inveja do erotismo do século XXI? Será que fui apenas barrado do baile?

- Arnaldo Jabor -
Uma semana com.....
Reynaldo Gianecchini!!!

13/04/07

Vou então encerrar a semana de Richard Gere...
...em beleza como sempre!!!
Foto: Oleg Kosirev

Procurar-te-ei até te encontrar, mesmo que só te encontre em corpos onde tu não estás...

Al Berto
Foto: Jens Rohland

O silêncio é o banho branco da alma.

No coração do silêncio nascem os ideais
na alma do silêncio nascem os sonhos
no corpo do silêncio nascem as paixões.

O silêncio abraça-nos com os seus dedos de tule
embala-nos com suas mãos de paz.

O silêncio envolve-nos
faz-nos sentir corações a bater.

Foi no teu silêncio que descobri o amor.

- Rosa Lobato Faria in "Um Minuto de Silêncio" -
Foto: Isaque Tomé
A seguir ao almoço.....
Os meus recortes....

Diz-me onde moras!
Nomes da nossa terra que urgiria esquecer.

Um dos grandes problemas da nossa sociedade é o trauma da morada. Por exemplo.
Há uns anos, um grande amigo meu, que morava em Sete Rios, comprou um andar em Carnaxide. Fica pertíssimo de Lisboa, é agradável, tem árvores e cafés. Só tinha um problema. Era em Carnaxide. Nunca mais ninguém o viu. Para quem vive em Lisboa, tinha emigrado para a Mauritânea. Acontece o mesmo com todos os sítios acabados em -ide, como Carnide e Moscavide. Rimam com Tide e com Pide e as pessoas não lhes ligam pevide. Um palácio com sessenta quartos em Carnide é sempre mais traumático do que um T0 nos arredores de Cascais. É a injustiça do endereço. Está-se numa festa e as pessoas perguntam, por boa-educação ou por curiosidade, onde é que vivemos. O tamanho e a arquitectura da casa não interessam. Mas morre imediatamente quem disser que mora em Massamá, ou em qualquer outro sítio que soe à toponímia de Angola. Para não falar na Cova da Piedade, no Fogueteiro e na Cruz de Pau. Ao ler os nomes de alguns sítios, compreende-se porque é que Portugal não está preparado para entrar na CEE. De facto, com sítios chamados Finca Joelhos (concelho de Avis) e Deixa o Resto (Santiago do Cacém), como é que a Europa nos vai querer integrar?
Compreende-se logo que o trauma de viver na Damaia ou na Reboleira não é nada comparado com certos nomes portugueses. Imagine-se o impacto de dizer: "Eu sou da Margalha" (Gavião) no meio de um jantar. Veja-se a cena num chá dançante em que um rapaz pergunta delicadamente: "E a menina de onde é?", e a menina diz: "Eu sou da Fonte da Rata" (Espinho). E suponhamos que, para aliviar, o senhor prossiga, perguntando "E onde mora, presentemente?", só para ouvir dizer que a senhora habita na Herdade da Chouriça (Estremoz). É terrível.
O que não será o choque psicológico da criança que acorda, logo depois do parto, para verificar que acaba de nascer na localidade de Vergão Fundeiro? Vergão Fundeiro, que fica no concelho de Proença-a-Nova, parece o nome de uma versão transmontana do Garganta Funda. Aliás, que se pode dizer de um país que conta não com uma Vergadela (em Braga), mas com duas, contando com a Vergadela de Santo Tirso? Será ou não exagerado relatar a existência, no concelho de Arouca, de uma Vergadelas?
É evidente, na nossa cultura, que existe o trauma da "terra". Ninguém é do Porto ou de Lisboa. Toda a gente é de outra terra qualquer. Geralmente, como veremos, a nossa terra tem um nome profundamente embaraçante, daqueles que fazem apetecer mentir. Qualquer bilhete de identidade fica comprometido pela indicação de naturalidade que reze Fonte do Bebe e Vai-te (Oliveira do Bairro). É absolutamente impossível explicar este acidente da natureza a amigos estrangeiros ("I am from the Fountain of Drink an Go Away..."). Apresente-se no aeroporto com o cartão de desembarque a denunciá-lo como sendo originário de Filha Boa. Verá que não é bem atendido. Não há limites. Há até um lugar chamado Cabrão, no concelho de Ponte de Lima. Fica perto da aldeola de Sacripanta e da lendária vila Sacana. Estes dois últimos são mentira.
Urge proceder à renomeação de todos estes apeadeiros. Há que dar-lhes nomes europeus, ou então parecidos com os nomes dos restaurantes giraços, tipo Não Sei, A Mousse é Caseira, ou Vai Mais um Rissól.(...).
Também deve ser difícil arranjar outro país onde se possa fazer um percurso que vá da Fome Aguda à Carne Assada (Sintra) passando pelo Corte Pão e Agua (Mértola), sem passar por Poriço (Vila Verde), e acabando a comprar rebuçados em Bombom do Bogadouro (Amarante), depois de ter parado para fazer chi-chi em Alçaperna (Lousã).
(Bogadouro é o Mogadouro quando se está constipado).

- Miguel Esteves Cardoso -
A sorte e o azar fazem parte da vida de todos nós...
Do futebol também!!!
Bom dia, embora seja sexta feira 13.
A semana de Richard Gere

12/04/07

Pronto, agora vou preparar-me para ir ver o meu Benfica.
Tenho já tudo o que preciso, para me sentar tranquilamente - ou não - a ver o jogo. Tostas, queijos, presunto fatiado, e para beber vou resolver na altura, entre um vinho tinto ou um champagne. O pior das bebidas é que abrir uma garrafa só para uma pessoa, das duas uma: ou sobra e acaba por não ficar em condições, ou... terei que beber tudo, sozinha!!!
Para festejar ou para afogar a tristeza?
Logo se vê... esperanças não faltam!!
Até amanhã.
Foto: Kazuo Okubo

Quando já nada é intacto
Quando tudo na vida vem em pedaços
E por dentro me rebenta um mar
Quando a cidade alucina
Num luar de néon e de neblina
E me esqueço de sonhar

Quando há qualquer coisa que sufoca
E os dias são iguais a outros dias
E por dentro o tempo é tão voraz
Quando de repente num segundo
Qualquer coisa me vira do avesso
E desfaz cada certeza do meu mundo
Quando o sopro de uma jura
Faz balançar os dias
Quando os sonhos contaminam
Os medos e os cansaços
Quando ainda me desarma
A tua companhia
E tudo o que a vida faz

Em mim

Quando o dia recomeça
E a noite ainda te prende nos seus braços
E por dentro te rebenta um mar
Quando a cidade te esconde
E o silêncio é o fundo das palavras
Que te esqueces de gritar....

- Mafalda Veiga -
A seguir ao almoço.....
Portugal, um retrato social.
Um dos melhores programas, feitos em televisão, de há uns anos a esta parte.
Trata-se de uma série da autoria de António Barreto, e retrata a sociedade portuguesa de hoje, em comparação com o que era há algumas décadas atrás.
As mudanças que ocorreram desde então. Talvez uma mudança feita demasiado rápido.
Vale a pena ver. A não perder às terças feiras na RTP 1.