04/05/05

Um dia, casualmente, eu disse a um amigo que a guitarra, ou violão, era "a música em forma de mulher". A frase encantou-o e ele andou a espalha-la como se ela constituísse o que os franceses chamam «un mot d'esprit».
Pesa-me ponderar que ela não quer ser nada disso; é melhor, a pura verdade dos factos.
O violão é não só a música (com todas as suas possibilidades orquestrais latentes) em forma de mulher, como, de todos os instrumentos musicais que se inspiram na forma feminina - viola, violino, bandolim, violoncelo, contrabaixo - o único que representa a mulher ideal: nem grande, nem pequena; de pescoço alongado, ombros redondos e suaves, cintura fina e ancas plenas; cultivada mas sem jactância; relutante em exibir-se, a não ser pela mão daquele a quem ama; atenta e obdiente ao seu amado, mas sem perda de carácter e dignidade; e, na intimidade, terna, sábia e apaixonada. Há mulheres-violino; mulheres-violoncelo e até mulheres-contrabaixo.
Mas como se recusam a estabelecer aquela intima relação que o violão oferece; como se negam a se deixar cantar preferindo tornar-se objecto de solos ou partes orquestrais; como respondem mal ao contacto dos dedos para se deixar vibrar, em beneficio de agentes excitantes como arcos e palhetas, serão sempre preteridas, no final, pelas mulheres-violão, que um homem pode, sempre que quer, ter carinhosamente em seus braços e com ela passar horas de maravilhoso isolamento, sem necessidade, seja de tê-la em posições pouco cristãs, como acontece com os violoncelos, seja de estar obrigatoriamente de pé diante delas, como se dá com os contrabaixos.
Mesmo uma mulher-bandolim (vale dizer: um bandolim), se não encontrar um Jacob pela frente, está roubada. Sua voz é por demais estrídula para que se a suporte além de meia hora. E é nisso que a guitarra, ou violão (vale dizer: a mulher-violão), leva todas as vantagens. Nas mãos de um Segovia, de um Barrios, de um Sanz de la Mazza, de um Bonfá, de um Baden Powell, pode brilhar tão bem em sociedade quanto um violino nas mãos de um Oistrakh ou um violoncelo nas mãos de um Casals. Enquanto que aqueles instrumentos dificilmente poderão atingir a pungência ou a bossa peculiares que um violão pode ter, quer tocado canhestramente por um Jayme Ovalle ou um Manuel Bandeira, quer "passado na cara" por um João Gilberto ou mesmo o crioulo Zé-com-Fome, da Favela do Esqueleto.
Divino, delicioso instrumento que se casa tão bem com o amor e tudo o que, nos instantes mais belos da natureza, induz ao maravilhoso abandono! E não é à toa que um dos seus mais antigos ascendentes se chama viola d'amore, como a prenunciar o doce fenómeno de tantos corações diariamente feridos pelo melodioso acento de suas cordas...Até na maneira de ser tocado - contra o peito - lembra a mulher que se aninha nos braços do seu amado e, sem lhe dizer nada, parece suplicar com beijos e carinhos que ele a tome toda, que a faça vibrar no mais fundo de si mesma, e a ame acima de tudo, pois de contrário ela não poderá ser nunca totalmente sua.
Ponha-se num céu alto uma Lua tranquila. Pede ela um contrabaixo? Nunca! Um violoncelo? Talvez, mas só se por trás dele houvesse um Casals. Um bandolim? Nem por sombra! Um bandolim, com seus tremolos, perturbaria o luminoso êxtase. E o que pede então, direis, uma Lua tranquila num céu alto? E eu respondo: um violão. Pois dentre os instrumentos musicais criados pela mão do homem, só o violão é capaz de ouvir e de entender a Lua.

"Uma Mulher Chamada Guitarra" - Vinicius de Moraes.