09/03/07

Perto da hora do almoço ligam-me a perguntar se quero ir almoçar, ao que respondi que já tinha um almoço combinado. Não era verdade! Acontece que tinha decidido aproveitar aquela hora para ir a uma esplanada junto ao rio, petiscar alguma coisa e, na companhia da Revista Atlântico, apanhar um pouco deste sol radioso! Se bem o pensei, melhor o fiz!!
Sentei-me e por momentos - enquanto fumava um cigarro - estive a olhar aquele rio tão tranquilo, o mesmo que alguém ontem escolheu para pôr termo a vida! Quando o pensamento tentou "fugir até outras paragens", achei que era altura de pegar na minha companheira de almoço e começar a ler. Afinal os livros e revistas também são amigos, silenciosos é certo, mas servem para nos transmitir sempre algo de bom e fazem-nos imensa companhia.
De alguns artigos que li, aproveito para colocar aqui um de dois que constam na Atlântico, e que achei muito interessantes. O primeiro - "Pedimos desculpa por esta Interrupção" de Paulo Pinto Mascarenhas que está óptimo e traduz uma parte da nossa realidade, e o segundo "Como deve votar nos Grandes Portugueses" de Rui Ramos, e no final do artigo diz assim: "Diz-me quem és, dir-te-ei em quem votas". Vale a pena ler porque está muito bem «apanhado».

Pedimos desculpa por esta Interrupção

Durante três meses não saímos da conversa do vão-de-escada. Interrompeu-se, voluntária ou involuntariamente, o debate sobre os problemas que realmente dizem respeito a todos. Isto a propósito de uma causa "fracturante" que interessa sobretudo aos extremos. por opção de alguns homens e algumas mulheres - todos eles, de um modo ou de outro, ligados à "causa" - concentrou-se a atenção da opinião pública e publicada num único assunto: o referendo de 11 de Fevereiro.
Os portugueses foram confrontados com palavras esdrúxulas de um léxico agressivo que não reflecte o seu dia-a-dia. Durante meses, criou-se um falso retrato do país, uma falsa imagem marcada por uma falsa discussão a preto-e-branco. Dividiu-se o país entre a "modernidade" e o "atraso", entre os que são europeus e os que ficaram irremediavelmente afastados da "Europa". Uma imagem, falsa e radical, que só ajudou a distanciar os portugueses das urnas.
Perante os resultados do referendo ao aborto - ou à Interrupção Voluntária da Gravidez - é fácil de ver que os portugueses e as portuguesas têm outros assuntos bem mais relevantes com que se preocupar. A larga maioria - 56,39%, representando quase cinco milhões de cidadãos com capacidade eleitoral - escolheu a abstenção. Estes 4 981 015 portugueses que preferiram ficar em casa a ter de decidir entre "a modernidade e o atraso" são mais do que os que elegeram a actual maioria absoluta do Partido Socialista ou qualquer Presidente da República desde 1976. Mas são os mesmos 4 981 015 que no dia seguinte ao referendo continuam a ser esquecidos pelo debate político.
Nas análises da generalidade dos comentadores criou-se a ilusão de que tudo correu no melhor dos mundos, "apesar" da abstenção. Procurou-se descobrir vencedores e derrotados, numa dicotomia apressada, simplista e redutora. Velhas quezílias ressuscitaram pela pena de escribas engajados. Em nome do século XXI, ensaiaram-se julgamentos de carácter e de moral que deveriam ter ficado mortos e enterrados no século XIX. O anti-clericalismo, por exemplo, voltou em força, com algumas baterias anacrónicas a disparar contra a Igreja Católica.
Depois de uma campanha em que participaram activamente desde humoristas ao primeiro-ministro em pessoa, mais do que o "Sim" versus o "Não", o referendo ao aborto comprovou a separação crescente entre o país real e o país politico. Apesar da gritaria estridente dos dois lados da trincheira do país politico, grande parte do país real não foi às urnas. O país real não quis saber ou preferiu manter-se longe do espectáculo encenado pelo país político.
Razão tem o Presidente da República ao dizer que o referendo pode ter causado rupturas na sociedade portuguesa. Por isso, Cavaco Silva apelou a "soluções de bom senso, equilibradas e ponderadas" para a nova lei.
Soluções que contribuam para unir e não para dividir ainda mais. Aqui está uma matéria em que os "consensos alargados" fazem todo o sentido. Assim o bom senso predomine e o país político concentre os seus esforços em ouvir e compreender a mensagem do país real. E em procurar novas soluções para os velhos problemas que afectam os portugueses. Para que Portugal possa seguir dentro de momentos.

- Paulo Pinto Mascarenhas in Editorial / Revista Atlântico -