05/04/04

SOBRE ESTAR SOZINHO
Não é apenas o avanço tecnológico que marcou o inicio deste milénio. As relações afectivas também estão a passar por profundas transformações e a revolucionar o conceito de amor.
O que se busca hoje é uma relação compatível com os tempo modernos, na qual exista individualidade, respeito, alegria, e prazer de estar junto, e não mais uma relação de dependência, em que um responsabiliza o outro pelo seu bem-estar.
A idéia de que uma pessoa possa ser o remédio para a nossa felicidade, que nasceu para o romantismo, está fadada a desaparecer neste início de século. O amor romântico parte da premissa de que somos uma fracção e precisamos encontrar a nossa outra metade para nos sentirmos completos.
Muistas vezes ocorre até um processo de despersonalização que, historicamente, tem atingido mais a mulher. Ela abandona as suas características, para se amalgamar ao projecto masculino.
A teoria da ligação entre opostos também vem dessa raíz: o outro tem que saber fazer o que eu não sei. Se sou calmo, ele deve ser agressivo, e assim por diante. Uma ideia prática de sobrevivência, e pouco romântica, por sinal.
A palavra de ordem deste século é parceria. Estamos a trocar o amor de necessidade, pelo amor de desejo. Eu gosto e desejo a companhia, mas não preciso, o que é muito diferente.
Com o avanço tecnológico, que exige mais tempo individual, as pessoas estão a perder o pavor de ficar sózinhas, e a aprender a conviver melhor consigo mesmas. Elas estão a começar a perceber que se sentem fracção, mas são inteiras.
O outro, com o qual se estabelece um elo, também se sente uma fracção. Não é o príncipe ou salvador de coisa nenhuma. É apenas um companheiro de viagem.
O homem é um animal que vai mudando o mundo, e depois tem que ir reciclando-se, para se adaptar ao mundo que fabricou. Estamos na era da individualidade, o que não tem nada a ver com egoísmo. O egoísta não tem energia própria; ele alimenta-se da energia que vem do outro, seja ela financeira ou moral.
A nova forma de amor, ou mais amor, tem nova feição e significado. Visa a aproximação de dois inteiros, e não a união de duas metades. E ela só é possível para aqueles que conseguirem trabalhar a sua individualidade.
Quanto mais o indivíduo for competente para viver sózinho, mais preparado está para uma boa relação afectiva. A solidão é boa, ficar sózinho não é vergonha. Ao contrário, dá dignidade à pessoa. As boas relações afectivas são óptimas, são muito parecidas com o ficar sózinho, ninguém exige nada de ninguém e ambos crescem.
Relações de dominio e de concessões exageradas são coisas do século passado.
Cada cérebro é único. O nosso modo de pensar e agir não serve de referência para avaliar ninguém. Muitas vezes, pensamos que o outro é a nossa alma gemea e, na verdade, o que fizemos foi inventá-lo ao nosso gosto.
Todas as pessoas deveriam ficar sózinhas de vez em quando, para estabelecer um diálogo interno e descobrir a sua força pessoal. Na solidão, o indivíduo entende que a harmonia e a paz de espírito só podem ser encontradas dentro de si mesmo, e não a partir do outro. Ao perceber isso, ele torna-se menos crítico e mais compreensivo quanto às diferenças, respeitando a maneira de ser de cada um.
O amor de duas pessoas inteiras é bem mais saudável.
Nesse tipo de ligação, há o aconchego, o prazer da companhia e o respeito pelo ser amado.

Desconheço o autor deste texto que achei fantástico e muito actual na verdade, e que me foi enviado por uma colega e amiga.
Estou convicta de que hoje em dia as pessoas, e principalmente as mulheres, estão a perder o medo de viver sozinhas e da tal solidão, que sem dúvida por vezes existe. Mas a solidão também é uma opção. Sabe bem! Precisamos dela e do nosso espaço. Para aprendermos a respeitar o espaço dos outros. Ninguém é propriedade de ninguém.
E de vez em quando sabe tão bem um aconchego, uma palavra, um abraço apertado...pode ser mesmo só isto!
Já é tanto!!!