23/12/05

Mais uma noite em que a insónia foi minha companheira. O sono, de novo, escapa-me das mãos!
Sentada, em frente à minha janela - aquela que dá para o rio - reparo na imagem que se reflete nas vidraças da janela, e é como se aquele vidro me olhasse com ironia!
A noite está fria, o ruído do silêncio nesta sala ampla, mantém-me acordada. O silêncio é tão pesado, como a ausência do sono em mim.
Sento-me no cadeirão preferido - hoje mais do que nunca é o meu cadeirão - e deito a mão a um cigarro, que neste momento é o velho companheiro que me faz companhia e me trás alguma paz. Faço um esforço para que o pensamento não voe veloz para o «lugar» de sempre.
Á minha frente a Árvore de Natal pisca nas suas luzes multicolores, incansável! Nesta época do ano, há mais tendência em recordar de uma forma mais sentida, aqueles que amamos e que tanta falta nos fazem. E o pensamento, atravessa oceanos, até chegar ao Índico.
Somos uma familia numerosa e recordo o Natal com a casa cheia. Eramos cerca de vinte e quatro, entre avós, pais, filhos, tios, netos e sobrinhos. Alguns já "partiram" e não voltaremos a tê-los no nosso Natal, outros regressaram à terra que os viu nascer vinte anos após terem de lá saido. Não os vejo há dez anos! Dez longos anos, que não conseguirei recuperar nunca mais. E nesta época sinto a sua falta mais do que nunca. Crescemos juntos, vivemos sempre por perto até regressarem a Moçambique. Dei comigo a pensar que o meu filho não os conhece. Sabe quem são apenas por fotografia. Como o tempo passa...
Enquanto perdemos tempo com coisas tão pequenas e sem importância, esse tempo vai andando, sem que seja possível parar o relógio. Perde-se tempo com pensamentos absurdos, diálogos que não acontecem, monólogos sem respostas, alimentados por ideias idiotas, e continuamos a lutar contra o senso comum daquilo que pensamos que tem que fazer sentido. Deixamo-nos embrulhar em teorias de conflitos, feitos de vontades alheias, mesmo sabendo que vão contra os nossos príncipios, os nossos desejos.
Hoje sou uma pessoa diferente, penso por vezes que sou uma desconhecida que do passado, da criança e adolescente que fui, apenas mantem o nome.
Por todas estas conclusões a que chego, apetece-me recordar o que foi bom, o que valeu a pena, e aqueles que me dão o prazer da sua companhia. Recordar é como reler o príncipio. É como voltar ao começo. Á gargalhada sincera e espontânea. Ás brincadeiras. Á cumplicidade dos segredos. Ao primeiro amor que pensamos será eterno, e que com o passar do tempo vemos que afinal não é bem assim. Aos sonhos em que acreditámos, as ilusões que nos deslumbravam.
Tudo ficou para trás. Tudo passou!
Já à espreita está o sorriso da madrugada.
Antes que o sono chegue, digo adeus ao que ficou nas lembranças.
E já aconchegada no calor dos lençois, desejo um Feliz Natal aos meus que estão tão longe.
E que por momentos estiveram ali, tão perto de mim.
Estarão sempre!!!